Discordar de um artista não torna o boicote obrigatório
Eu compraria um ingresso mesmo rejeitando uma opinião do diretor. Sustentar essa escolha exige responder pelo dinheiro e pelo prestígio que ela oferece.
Opinião
Luiza Mendonça
7 de novembro de 2026 · Ensaio de princípios

Discordar de uma declaração, por si só, não me parece razão suficiente para exigir que todos abandonem a obra de quem a fez. Eu compraria um ingresso para um filme que considerasse bom, mesmo rejeitando uma opinião de seu diretor. Não exigiria que ele passasse num exame de afinidade política para reconhecer seu trabalho.
Assumo o incômodo dessa escolha. Se parte do pagamento coubesse ao diretor, eu estaria disposta, nessa situação, a remunerar alguém cuja opinião rejeito. A resposta não pode ser fingir que o dinheiro desapareceu entre a bilheteria e o autor. Minha justificativa seria o valor que reconheço no filme. Aceito que alguém ache essa razão insuficiente. O que contesto é transformar essa divergência numa obrigação coletiva de boicotar.
Quem decide retirar seu dinheiro tem um argumento que merece ser enfrentado: ninguém lhe deve financiamento para continuar uma carreira. Concordo. Defender a liberdade do público inclui aceitar uma sala vazia e uma campanha de boicote. Um artista não ganha direito à compra alheia porque produziu algo bom. Tampouco a campanha ganha autoridade automática sobre quem resolve entrar na sessão. Seus participantes precisam convencer essa pessoa, e ela pode continuar discordando.
Minha disposição para comprar também tem limites. Num cenário em que a venda fosse explicitamente destinada a financiar uma iniciativa que considero danosa, o destino anunciado do dinheiro pesaria mais que meu interesse pelo filme. Eu recusaria o ingresso. A diferença está no vínculo entre o pagamento e aquilo que rejeito. Para cobrar essa recusa de outras pessoas, seria necessário demonstrar tal vínculo; a simples existência de uma opinião desagradável não o estabelece.
Há ainda a própria obra. Se uma canção defendesse, na letra, uma ideia que considero abjeta, eu não tentaria retirar a letra da experiência para salvar minha preferência. Poderia rejeitar a canção por isso. A separação entre criação e criador serve para examinar um problema; não deveria virar uma ordem para gostar de tudo.
Também cobraria precisão de quem elogia. Defender a qualidade de um filme não autoriza esconder uma defesa do diretor dentro desse elogio. Se o propósito for apoiar sua posição, que isso seja assumido. E quem acusa um espectador de endossá-la precisa sustentar a acusação, em vez de usar o ingresso como prova suficiente.
Eu sustentaria publicamente as duas escolhas: comprar o ingresso no primeiro caso e recusá-lo quando seu destino contrariasse meu critério. Aceitaria o custo de explicá-las sem pedir que todos me acompanhassem. Prefiro essa responsabilidade à exigência de apresentar uma coleção inteira de gostos como certificado de boa conduta.